Consórcios públicos estudam ação conjunta pela resiliência climática
Experiência do Cisvale e do Comitê Pró-Clima é apresentada em Santa Cruz do Sul e inspira debate para mobilizar estruturas que atendem mais de 5 milhões de gaúchos em uma estratégia integrada para solos, drenagem, recursos hídricos e prevenção aos extremos climáticos
Santa Cruz do Sul – Uma articulação capaz de reunir os consórcios públicos gaúchos em torno de uma agenda comum de resiliência climática começou a ganhar forma nesta quinta-feira, 13, em Santa Cruz do Sul. Durante reunião da Associação Gaúcha de Consórcios Públicos (Agconp), representantes de diferentes regiões do Estado conheceram a experiência desenvolvida pelo Consórcio Intermunicipal de Serviços do Vale do Rio Pardo (Cisvale), especialmente a partir da atuação do Comitê Pró-Clima. O modelo regional, estruturado depois dos eventos extremos de 2024, provocou uma discussão mais ampla sobre como a capacidade de articulação dos consórcios pode ser utilizada para enfrentar problemas que ultrapassam divisas municipais, como assoreamento dos rios, drenagem dos solos, recuperação de áreas agricultáveis, gestão das águas e preparação para períodos alternados de excesso e escassez hídrica.
Presidente da Agconp e prefeito de Pinhal, Luiz Carlos Pinto Ribeiro defendeu que a dimensão dos desafios exige uma resposta igualmente ampla e coordenada. Os consórcios associados atendem mais de 5 milhões de gaúchos, população que confere à estrutura uma capacidade significativa de mobilização territorial no Rio Grande do Sul. Para Ribeiro, a experiência apresentada pelo Cisvale oferece elementos para que esta cooperação avance também sobre a pauta climática. “Precisamos fazer com que os consórcios liderem um grande processo voltado à drenagem e à recuperação dos solos do Rio Grande do Sul. Se não construirmos algo coletivo agora, daqui a uma década poderemos estar discutindo os mesmos problemas”, afirma. O presidente da Agconp também destacou a impressão deixada pelo trabalho regional. “O Cisvale nos dá um norte e uma luz. Como associação, teremos que trabalhar muito com a resiliência climática, porque esta é uma realidade que passa a fazer parte permanentemente das nossas decisões”, acrescenta.
Vice-presidente da Agconp e presidente do Cisvale, Gilson Becker apresentou a trajetória que levou à criação do Comitê Pró-Clima e à construção de uma agenda regional voltada à prevenção, adaptação e capacidade de resposta. A estratégia foi organizada em quatro grandes frentes: resiliência climática e gestão de desastres; gestão de recursos hídricos e revitalização de ecossistemas; infraestrutura e urbanização sustentável; e recuperação de solos agricultáveis e agricultura sustentável. Becker ressaltou que os extremos observados nos últimos anos demonstram como seca e excesso de chuva estão relacionados a uma mesma necessidade de planejamento territorial. “Nos períodos de seca, vimos muitos açudes serem abertos e esgotados. Agora convivemos com rios assoreados e um problema sério de drenagem. Precisamos pensar em soluções capazes de responder a diferentes condições climáticas, porque não estamos tratando de um fenômeno isolado, mas de uma realidade que exige planejamento permanente”, pontua.
A experiência do Cisvale apresentada aos representantes dos consórcios traduz essa estratégia em projetos e ações práticas. Desde a instalação do Comitê Pró-Clima, em agosto de 2024, a região estruturou estudos para monitoramento meteorológico e hidrológico, modelagem de áreas sujeitas a inundações, análise do assoreamento dos rios Pardo e Pardinho, recuperação de margens e solos agrícolas e fortalecimento das estruturas municipais de Defesa Civil. A agenda já resultou, entre outras iniciativas, na instalação de estações meteorológicas, no avanço do monitoramento dos níveis dos rios e na destinação de sete embarcações para reforçar operações de resgate. Para a diretora executiva do Cisvale, Léa Vargas, o principal legado do modelo está na transformação de demandas municipais em uma estratégia regional articulada. “Os eventos climáticos demonstraram que nenhuma cidade consegue construir respostas completas de forma isolada. O Comitê Pró-Clima nasce justamente dessa compreensão de que conhecimento técnico, planejamento, recursos e capacidade de execução precisam estar conectados. Compartilhar esta experiência com os demais consórcios é também contribuir para que soluções regionais possam ganhar escala no Rio Grande do Sul”, destaca.
A discussão realizada em Santa Cruz do Sul abre, assim, uma perspectiva para que a atuação desenvolvida no Vale do Rio Pardo sirva de referência à construção de uma agenda mais abrangente entre os consórcios. Mais do que replicar projetos, a proposta debatida passa por compartilhar conhecimento, estruturar diagnósticos e reunir capacidade técnica e institucional para problemas que obedecem à lógica das bacias hidrográficas e do território, e não aos limites administrativos dos municípios. Para Ribeiro, esta pode se tornar uma das grandes frentes de atuação conjunta da Agconp diante do novo cenário climático gaúcho. Ao reunir estruturas públicas que alcançam praticamente metade da população do Estado, os consórcios passam a enxergar na cooperação não apenas uma ferramenta de eficiência administrativa, mas uma possibilidade concreta de construir respostas de escala para um dos desafios mais complexos desta geração.


