Estudo parcial aponta seca, enchentes e enxurradas como principais ameaças climáticas regionais
Levantamento apresentado pelo Cisvale na quarta etapa do AdaptaCidades reúne diagnósticos de oito municípios, identifica vulnerabilidades provocadas por eventos extremos e propõe medidas de prevenção, proteção ambiental e adaptação climática
Santa Cruz do Sul – A dimensão dos desastres climáticos, os riscos que permanecem sobre comunidades inteiras e as alternativas para reduzir seus impactos começam a ganhar contornos mais precisos no Vale do Rio Pardo. Nesta quinta-feira, 22, equipes técnicas de oito municípios apresentaram ao Comitê Pró-Clima do Consórcio Intermunicipal de Serviços do Vale do Rio Pardo (Cisvale) os resultados da quarta etapa de implementação do programa AdaptaCidades, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) voltada ao fortalecimento da capacidade de prevenção e adaptação dos municípios. Os estudos, realizados em Vale do Sol, Vera Cruz, Sinimbu, Venâncio Aires, Gramado Xavier, Boqueirão do Leão, Rio Pardo, Candelária e Encruzilhada do Sul, reúnem diagnósticos territoriais, históricos de ocorrências, avaliações de vulnerabilidade e propostas de intervenção.
Embora cada município apresente particularidades geográficas e socioeconômicas, os levantamentos identificam um problema recorrente: os eventos associados às chuvas intensas, especialmente enchentes, enxurradas e alagamentos, cujas consequências atingem moradias, infraestrutura, produção agrícola e serviços essenciais. As estiagens prolongadas, a escassez hídrica e os movimentos de massa também aparecem entre as ameaças mais relevantes. Os números ajudam a dimensionar a gravidade do cenário até aqui mapeado. Em Candelária, foram identificadas 53 ocorrências de alagamentos, inundações e enxurradas entre 2000 e 2024, enquanto a enchente de maio de 2024 deixou aproximadamente 4 mil pessoas desalojadas e provocou prejuízos agrícolas estimados em R$ 114 milhões. Em Rio Pardo, o mesmo desastre atingiu 14.564 moradores e 3.641 edificações, com impactos em dez bairros.
Já em Boqueirão do Leão, o histórico reúne 28 ocorrências desde 2013, incluindo oito enxurradas e cinco estiagens. Já Gramado Xavier contabiliza oito eventos extremos desde 2022, entre estiagens, enxurradas, granizo e chuvas intensas. Os registros, referentes a diferentes períodos de levantamento, revelam a recorrência dos fenômenos e suas consequências sobre a segurança da população, especialmente nas comunidades rurais e nas áreas próximas aos cursos d’água.
A análise evidencia diferenças importantes entre os territórios e reforça a necessidade de medidas adaptadas às características de cada município. Gramado Xavier e Encruzilhada do Sul classificam seu risco climático como alto, Vera Cruz e Rio Pardo apresentam risco geral médio, embora mantenham áreas e atividades com elevada exposição. Em Candelária, o mapeamento identifica 34 setores de risco geológico, dos quais 33 estão classificados como de risco muito alto. O município de Gramado Xavier enfrenta dificuldades de abastecimento de água, cuja cobertura alcança apenas 32,92% da população rural, conforme os dados utilizados no diagnóstico. Em Vale do Sol, a dependência agropecuária, a dispersão das comunidades e as limitações de infraestrutura ampliam a vulnerabilidade diante de estiagens e chuvas intensas.
Para o presidente do Cisvale, prefeito Gilson Becker, os resultados demonstram a importância do comprometimento das administrações municipais com uma agenda que ultrapassa os limites territoriais de cada cidade. “Precisamos reconhecer e parabenizar as equipes e os técnicos dos municípios envolvidos neste trabalho. É a dedicação desses profissionais que nos permite avançar na construção do Plano Regional de Adaptação às Mudanças Climáticas e, ao mesmo tempo, no processo de adequação ao AdaptaCidades. Estamos construindo um planejamento que parte da realidade de cada município para desenvolver respostas conjuntas aos desafios climáticos da nossa região”, destaca Becker.
A quarta etapa do projeto concentra-se na identificação das medidas de adaptação, após a estruturação da governança, a aplicação da lente climática e a análise dos riscos. Entre as propostas recorrentes estão a modernização dos sistemas de drenagem, a recuperação de nascentes e matas ciliares, a qualificação de pontes e estradas, a ampliação da segurança hídrica e a implantação de sistemas de monitoramento e alerta. Conforme a diretora executiva do Cisvale, Léa Vargas, a sistematização desses dados representa uma mudança na forma de planejar o enfrentamento dos eventos extremos. “Estamos reunindo conhecimento técnico para que as decisões não sejam tomadas apenas depois que os desastres acontecem. Cada município apresenta suas particularidades, mas os diagnósticos também revelam problemas comuns, que podem ser enfrentados com planejamento integrado, cooperação e busca conjunta de recursos. Nosso propósito é transformar esse trabalho em projetos viáveis, com prioridades definidas e resultados concretos para a população”, complementa Léa. Pantano Grande e Herveiras também concluíram seus trabalhos e apresentarão os resultados na próxima rodada.
Principais problemas
* Enchentes e enxurradas: alagamentos, desabrigados e danos à infraestrutura;
* Estiagens: escassez de água e perdas agrícolas;
* Deslizamentos e erosão: destruição de estradas, pontes e áreas produtivas;
* Vulnerabilidade social: famílias em áreas de risco e serviços essenciais comprometidos.
Principais soluções
* Infraestrutura: melhorias na drenagem, estradas, pontes e contenção de encostas;
* Segurança hídrica: cisternas, reservatórios e proteção de nascentes;
* Recuperação ambiental: recomposição de matas ciliares e áreas degradadas;
* Prevenção: monitoramento, alertas e fortalecimento das Defesas Civis;
* Agricultura: conservação do solo e práticas produtivas mais resilientes.


